Luto e superação
O luto precisa ser vivido
Quando alguém que amamos parte, existe um desencontro entre aquilo que sabemos e aquilo que sentimos. A razão compreende a perda, mas o afeto continua procurando aquela pessoa nos lugares onde ela sempre esteve.
Talvez por isso o luto seja tão difícil. Não perdemos apenas alguém. Perdemos uma presença, uma rotina, planos, conversas e uma parte da vida que existia porque aquela pessoa fazia parte dela.
E não existe um jeito correto de atravessar isso.
A primeira fase: permitir-se sofrer
Vivemos em uma sociedade que tem dificuldade em lidar com a tristeza. Pouco tempo depois de uma perda, surgem frases como “você precisa reagir”, “seja forte” ou “é preciso seguir em frente”.
Mas talvez, naquele momento, a pessoa não precise ser forte. Precise apenas ter o direito de estar triste.
Vivenciar o luto é permitir que os sentimentos provocados pela perda encontrem espaço. Tristeza, saudade, raiva, culpa e vazio podem aparecer de maneiras diferentes e em momentos inesperados.
O luto não acontece em linha reta. Há dias melhores e outros em que uma música, um cheiro ou uma lembrança nos devolvem à dor.
Tentar apressar esse processo não faz a dor desaparecer.
Sentir não significa permanecer preso à perda. Significa reconhecer que alguém foi importante o suficiente para que sua ausência também precise ser sentida.
A segunda fase: aprender a viver com a ausência
Em algum momento — e esse momento não tem data marcada — a vida começa novamente a pedir passagem.
A saudade permanece, mas já não ocupa todos os espaços. Voltamos a sorrir, fazer planos e experimentar momentos de alegria.
E isso não significa esquecer.
Elaborar o luto é aprender uma nova forma de carregar aquela relação. A presença concreta deixa de existir, mas permanecem as lembranças, os afetos, os ensinamentos e tudo aquilo que foi construído enquanto aquela pessoa esteve conosco.
Talvez essa seja uma das partes mais delicadas do luto: compreender que é possível seguir sem deixar para trás.
Não existe prazo para a saudade, assim como não existe um calendário determinando quando alguém deveria “estar bem”.
Com o tempo, porém, a dor pode mudar de forma. A lembrança que antes provocava apenas lágrimas pode também trazer um sorriso.
Não porque o amor diminuiu.
Mas porque o luto encontrou seu lugar.
Viver o luto não é permanecer na dor. É permitir que a dor faça o seu caminho até que a saudade consiga conviver novamente com a vida.
Heleusa Hioka,
Psicanalista Clínica.